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Síndrome de Irlen

  • Síndrome de Irlen

Acessibilidade e Síndrome de Irlen: uma introdução ao tema

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Um exemplo de distorção. Texto original: “Esse texto mexe”.

Se você procurar pela internet, vai descobrir que se trata de uma alteração na percepção visual.

Essa alteração, que produz efeitos no cérebro (e não nos olhos), ocorre por um desequilíbrio na capacidade de se adaptar à luz. Esse desequilíbrio provoca dificuldades na leitura, na manutenção do foco e desconforto nos olhos.

Uma das características da Síndrome responsável pelas dificuldades na leitura é a distorção visual.

O vídeo a seguir, produzido pelo Irlen Institute, simula distorções que podem ser experimentadas:

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Para lidar com os efeitos da Síndrome é possível utilizar lâminas de cores específicas (overlays). A cor ideal para cada um é descoberta durante o diagnóstico, no qual ainda se avalia se a melhor opção é o uso do lado fosco ou brilhante da lâmina.

É possível ainda adquirir óculos com lentes das cores que funcionam para a pessoa usuária. Seu valor, no entanto, é bem alto e atrelado ao dólar.

A experiência com produtos digitais

Tive a sorte de ter contato com uma profissional qualificada para realizar o diagnóstico da Síndrome aqui em Belo Horizonte. Diagnosticada, percebi dificuldades no uso de tecnologia assistiva para pessoas com Irlen quando combinadas com produtos digitais e físicos.

Baixei um filtro de cor no celular. Quando preciso realizar o download ou atualização de um aplicativo é necessário remover o filtro para não receber a mensagem de que “outro aplicativo está bloqueando o acesso”. Se não removo, os botões não funcionam (e eu demorei para adivinhar que o “bloqueio” vinha do overlay).

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Captura de tela da Play Store mostrando o bloqueio causado pelo app de filtro de cor sobreposto.

Agora um exemplo em outro dispositivo:

No computador, baixei um programa que realiza essa função de overlay. Na versão disponível na loja da Microsoft, ele funciona em apenas uma das telas e eu tenho dois monitores.

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Captura de tela mostrando a aparência após a aplicação de um filtro de cor criado por um programa.

Além disso, os programas a que tive acesso, como esse que utilizei para captura de tela, também apresentam problemas com as cores: elas são limitadas e nem sempre é possível se aproximar da cor ideal para aquela pessoa usuária.

Mas por que você não usa a lâmina de cor presa na tela do computador?

lâmina requer diversos cuidados para ser manuseada e tem um valor considerável. Como ela tem um tamanho padrão, eu teria que adaptá-la ao tamanho do meu monitor. Não quis arriscar danificar o material prendendo diretamente na tela com fitas ou prendedores de papel. Não consegui também encontrar alguma lâmina de cor específica e adaptável para uso nos meus dois monitores.

Mas não é apenas a experiência com computadores e celulares que fica afetada.

A experiência com produtos físicos

Ao escrever esse artigo entrei em contato com Manuela Jorge de Oliveira, uma pessoa que conheci através do Twitter, a fim de que ela revisasse o texto, já que também tem Irlen.

Percebemos uma dor comum a quem tem a Síndrome: a dificuldade de leitura.

Porém, ela pontuou sobre como livros com folhas brilhantes acentuam essas dificuldades, enquanto textos impressos em páginas amareladas ou em folhas recicláveis facilitam sua leitura.

Uma das ações que as lâminas de cor têm é reduzir o brilho e o contraste das superfícies, facilitando a leitura para quem tem Irlen:

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Eu utilizo um overlay da cor pêssego (peach) e essa é a diferença visual entre um texto com e sem a lâmina de cor.

Novamente nos produtos físicos o encaixe e manuseio é comprometido pelo tamanho dos materiais e, caso queira, a pessoa pode optar por cortar a lâmina para se adaptar ao livro ou caderno.

Porém, como materiais impressos tem diversos tamanhos, essa opção requer a compra de diversos filtros.

Práticas de design que diminuem o desconforto visual

Percebi práticas de Design que podem auxiliar a diminuir o desconforto visual. Alguns exemplos são:

  • Evitar o uso de branco puro (#ffffff) e preto puro (#000000) para áreas de texto, e
  • Evitar um espaçamento muito apertado entre linhas.

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Comparação entre uma relação entre texto e plano de fundo desconfortável e uma confortável

Em termos de conteúdo, a simplificação sempre é uma recomendação para incluir e tornar acessível. Aqui não é diferente.

Oferecer conteúdo em áudio pode auxiliar a pessoa usuária a consumir o material, amenizando o estresse visual e evitando um esforço prolongado.

Imagens e o uso de cores, elementos que algumas vezes são pensados para daltônicos, talvez não sejam pensados para quem tem Síndrome de Irlen.

Uso um filtro próximo do laranja: o vermelho, que pode ser confortável para leitura quando estou sem filtro, não é tão agradável quando estou com a camada de cor.

Aplicações que permitem a personalização de cores de textos e avisos nesse caso entregam para mim um valor para além do estético.

Contrastes e contextos

Esse cenário provoca aqueles que acreditam que obter um contraste AA/AAA (critérios 1.4.3 e 1.4.6 do Guia WCAG) seja o suficiente para algo com cor ser acessível. Um texto preto em fundo branco se adequa a esses critérios, mas no contexto das pessoas com Irlen gera desconforto.

É inevitável não lembrar das palavras de

Marcelo Sales

Por que pensar nas pessoas com Síndrome de Irlen ao projetar uma experiência?

Caso acessibilidade e inclusão não sejam medidas que bastem por si, imagine que você pode tornar a experiência mais confortável para 12 a 14% da população em geral, conforme dados de 2017.

Pense também que após 10 ou 15 minutos de leitura sem tecnologia assistiva sintomas como dores de cabeça, sonolência e baixa compreensão podem levar a pessoa a abandonar seu conteúdo.

Em resumo, métricas como retenção, engajamento e até mesmo aquisição podem ser impactadas.

Alguns avisos importantes

Antes que esse texto acabe, quero deixar claro não sou uma profissional da área responsável pelo diagnóstico e estudo da Síndrome.

Há pouco material online disponível sobre o assunto. A profundidade desse texto é então limitada pela experiência que tive nos últimos meses e pelo contato com a Manuela Jorge de Oliveira, a quem sou muito grata pela abertura e disponibilidade.

E se, ao ler esse texto e ver o vídeo de distorções do Irlen Institute, surgir em você a desconfiança de que pode ter a Síndrome, busque profissionais qualificados para diagnóstico.

Conclusão

Este artigo fornece um panorama sobre a Síndrome de Irlen e práticas de acessibilidade que incluem as pessoas que sofrem com o desconforto causado pela alteração na adaptação à luz.

Deixo aqui a provocação para todos aqueles que trabalham com produtos: incluir essas pessoas em testes de usabilidade e acessibilidade, considerar suas necessidades ao projetar e trazer mais qualidade de uso para 12 a 14% da população em geral.